Aquele olhar perdido era apenas um disfarce.
Não queria levantar suspeita alguma entre as pessoas sentadas no ônibus.
Tudo para que ninguém o impedisse de enfiar aquela faca na goela do Dijalma, cobrador de profissão e amante de sua esposa, a Ana.
Há duas semanas, o agora obstinado assassino Jair, soube do relacionando que se desdobrava desde dezembro. “Uma sem-vergonhice” – dizia o bilhete anônimo que recebeu. Não buscou levantar provas. Nem perguntou à mulher – ou ao amante – sobre a veracidade dos fatos relatados. Apenas cegou-se com aquelas poucas – mas cortantes – linhas.
Um tiro no peito de seu casamento.
Depois de passar os últimos dias tentando disfarçar o desespero por ter descoberto toda a traição, resolveu transferir algumas economias para uma conta antiga, matar o famigerado e fugir para a Serra. Antes, porém, visitou sua avó – que o criou – e confidenciou a ela seu destino, mesmo sabendo que o coma não a deixaria aconselhar sobre o futuro.
Sentado ali, no fundo, com um boné sobre o rosto, passando despercebido até para a vítima, esperava o momento certo de atacar. Pensava em levantar quando o futuro finado estivesse distraído e acertar-lhe o pomo-de-adão com um único golpe certeiro. Com a faca cravada em seu pescoço – pensava –, vai ficar com pouco ar para conseguir suportar o próprio peso e cairia no chão do ônibus. Se tivesse sorte – calculava –, ele cairia sobre a faca, fazendo-a ainda mais mortal. Na parada do Largo, o Jair, marido traído, cego pelo ódio, movido pelo desejo por sangue, pela justiça de sua honra, dedilha a arma e a gira pelo corpo, apontando-a para traz, de ponta cabeça, enquanto corre os longos três metros até a catraca. A adrenalina – do primeiro assassinato – o obriga a arremessar ao ar um poderoso grito e, por susto, colocar-se frente a frente com seu desafeto. Olhava apenas para o alvo e, como seus cálculos previam, acertou-o em cheio. A raiva, no entanto, fez a ponta da faca sair em outro ponto qualquer do pescoço.
Correu. Saltou do ônibus e sumiu na cidade. Vingado.